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29 de setembro de 2008 - 22:47Análises

Quando burlar a regra é bom negócio


A Fórmula 1 utiliza a regra do Safety Car há 15 anos, desde 1993. De lá até 2006, sua intervenção na corrida era simples. Em caso de acidente, todos os pilotos alinhavam atrás do carro de segurança, paravam nos boxes quando quisessem (se necessário) e relargavam após seu retorno ao pit lane. Um pouco de sorte envolvia a operação, muitos ganharam e outros tantos perderam corridas assim, mas durante todo o período, em nenhum momento alguém levou vantagem indevida.

No ano passado, porém, a FIA implementou uma nova norma. Visando evitar que os carros continuassem acelerando para chegar aos boxes para fazer um rápido pit stop antes que encontrassem o Safety Car, o que de fato é contrário ao espírito da regra, decidiu-se fechar os boxes assim que a corrida é paralisada com bandeira amarela. Todos os pilotos precisam alinhar atrás do carro-madrinha e só então os pits são abertos para que todos entrem e façam seus pit stops ao mesmo tempo. Os infratores que reabastecerem seus carros durante o período de box fechado são punidos com um stop & go de 10 segundos.

Desta maneira, a regulamentação acabou com a vantagem que alguns pilotos poderiam conquistar na regra antiga, parando nos boxes antes de todos e voltando à frente. Certo? Errado. É um jogo arriscado, mas é possível infringir a regra, reabastecer durante o período de proibição e ganhar posições. Levantei esta hipótese pela primeira vez na Rádio GP da corrida do Canadá do ano passado. Ontem, em Cingapura, Nico Rosberg e a Williams comprovaram a tese.

Vamos aos fatos. Nico era o 9º colocado no GP de Cingapura até a 15ª volta, quando o Safety Car foi acionado. O piloto da Williams quebrou a regra de box fechado e realizou seu primeiro pit stop antes de todo mundo, voltando à pista no meio do pelotão, em décimo lugar. Quando os boxes foram abertos e os demais realizaram seus pit stops, voilà. Rosberg assumiu a liderança. Robert Kubica tomou a mesma atitude, mas não logrou o mesmo sucesso. Jarno Trulli e Giancarlo Fisichella não pararam e o polonês ficou apenas em quarto.

Obviamente, a Williams informou que o piloto tinha pouco combustível e por isso foi obrigado a parar. É claro que a equipe jamais admitiria formalmente que quebrou a regra de propósito. Mas os tempos de Rosberg no treino de classificação não indicam que ele tivesse largado assim tão leve. Comparando os tempos de classificação do alemão no Q2 (pouco combustível) e no Q3 (tanque cheio), ele perdeu 2.2s. Pilotos que largaram mais leves, como Felipe Massa, perderam menos de 1s, e ainda resistiram a mais duas voltas na pista. Kubica, que também estava “sem gasolina”, perdeu 1.2s. Ou seja, tudo aponta para que Nico ainda tivesse combustível no tanque. Seu pit stop dificilmente foi de emergência.

A Williams arriscou e se deu muito bem. Líder na relargada e com pista livre à sua frente, beneficiado ainda pela lentidão dos pesados Trulli e Fisichella atrás de si, Rosberg pôde abrir uma grande diferença antes de cumprir a anunciada punição de sopt & go por 10 segundos. Depois da parada forçada nos boxes, retornou à pista em terceiro lugar.

Para se ter uma idéia, quem estava imediatamente à frente do alemão da Williams antes da entrada do Safety Car, Nick Heidfeld, a esta altura era nono. Na melhor das hipóteses, caso tivesse feito uma parada dentro do período permitido, Nico estaria por ali. Não há dúvidas de que houve vantagem.

Embora não goste da idéia de carros fazendo pit stop todos juntos, entregando posições para aqueles que não pararam ou que, por sorte, pararam antes (caso de Alonso), não acho que este seja o problema central da regra. A grande questão está na aplicação da pena por infração. A punição precisa ser rigorosa o suficiente para impedir que alguém tente burlar a regra, não é admissível que uma equipe possa ser permitida a arriscar uma ilegalidade sabendo que, mesmo pagando uma pena, levará vantagem.

Então, que altere-se o tamanho da punição. Em vez de 10s, que o piloto fique 20 ou 30s retido nos boxes, ou que só seja permitido retornar à pista ao final do pelotão, em último lugar. Do modo como a regra está, ser infrator pode ser bom negócio. Nico Rosberg, segundo colocado em Marina Bay, que o diga.

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comentários

21 comentários

  1. SMS disse:

    Capelli, mas aí aumenta a sacanagem com quem realmente tiver que parar pra evitar uma pane seca. Concordo com a Tese, mas não com a solução…

  2. lynwilliams disse:

    Quanto mais demorava a sair a punição, mais feliz eu ficava… Até a do Felipe saiu primeiro! E Rosberguinho ainda deu umas voltinhas antes de cumprir o stop & go, aí eu fiquei com medo de que ele "esquecesse" de parar! Ah se fosse outro que não Nano ali na frente…

    Por favor, abafa o caso se não Tio Ron vai entrar com recurso na FIA.

  3. Anonymous disse:

    Para com isso Capelli,
    o que aconteceu foi coincidencia: nunca que a Willians ia adivinhar que depois de fazer a parada o Fisichella ia fazer papel de escudeiro pro Rosberga abrir a vantagem que abriu…
    Talvez fosse melhor voce voltar a suas charges (altamente escassas , para nao dze desaparecidas) e parar com essa teoria da conspiração…
    Noticia a gente lê no Grandepremio, aqui o principal são suas charges e o bom humor que vc sempre teve!

  4. Brar disse:

    Acredito que nesta altura o Mosley está pensando em como deixou o Rosberg escapar e no que vai fazer para que isso não se repita no futuro.

    O que não vejo é o porque da necessidade tantas punições. Por exemplo essa do Massa não tinha a menor necessidade, o cara já tinha sido punido mais que o suficiente.
    Podiam é ter punido a Ferrari em 1 milhão de dolares por ter estragado a corrida dele, isso não deixaria a torcida chateada.

  5. Mário disse:

    Boa análise. Talvez até soubessem da estratégia do Fisichella, pq não?

    Só acredito que o problema não é a punição curta, e sim a demora da punição – que afinal permite que o piloto leve vantagem com pista livre.

    Enfim, como outras coisas na F1… Foram muitos anos de evolução e hoje temos inúmeros protocolos, até um excesso eu diria. É hora de usar a experiência acumulada e rever algumas coisas. Menos é mais.

  6. Carlos Kobra disse:

    O reabastecimento faz parte da Fórmula 1, remover isso é acabar com uma série de estratégias e nuances da competição

    Todavia, já foi mais emocionante o momento do reabastecimento em si. Apesar do que aconteceu no fim de semana passado, as equipes têm errado bem menos e sendo muito mais niveladas em termos de cronômetro na hora dos boxes.

  7. Taffa disse:

    Concordo com voce Capelli…
    Obviamente o Nico Rosberg alem de burlar a regra, contou com a sorte, ao sair na frente da Force India do Fisichella.

    Porem, conceitualmente voce está correto. Os 10s de punição que foram aplicados a ele não foram suficientes para toma-lo todo o tempo ganho…

    Some-se a isso, o fato de que os pilotos tem “um bonus” de 3 voltas para pararem nos boxes…

    Sou adepto de uma decisão mais simples. Proibe-se o reabastecimento durante as corridas… Assim, a entrada do safety car perderia “em partes” a sua importancia na estratégia da corrida…

  8. Pezzolo disse:

    hmmmm essa prova de cingapura é cheia de suspeitas de armações…

    mas no caso do rosberg, acho q ele se beneficiou sim, mas é difícil ter sido armado.

    o rosberg só levou vantagem pela lerdeza dos comissarios que só o puniram 4 voltas depois do fim do safety car, dando 8 voltas livres na pista.

    lembrando que o incidente do massa foi 2 voltas depois e ele foi punido antes…

  9. Leo disse:

    Disse exatamente a mesma coisa no Blog do Flávio Gomes, domingo, no post “No Escurinho (8)”.

    A regra anterior era melhor. Disseram que a mudaram porque o cara acelerava tudo que podia antes de ir para o box, e isso era perigoso, já que havia um acidente na pista. Ora, a bandeira amarela não serve justamente para que os pilotos dirijam com maior cautela? Não pode se acreditar que todo piloto é como aquele francês do Grand Prix, que pisa forte quando tem acidente na pista. Já existem punições para quem não respeita a bandeira amarela.

  10. Daniel Médici disse:

    Sobre a regra, duas alternativas:

    1 – que ela volte a funcionar como aconteceu até 2006.

    2 – mantenha-se a regra e proíbe-se o reabastecimento. Inclusive, prefiro esta alternativa.

  11. Edegar disse:

    Concordo com o Filipe Furtado… a vantagem do Nico foi ter uma Force India segurando todo mundo. E isso ele não tinha como prever.

    Não sei se alguém já comentou isso em outro post, mas tenho uma tese diferente sobre tirar vantagem com o Safety Car.

    Vejamos a situação da Renault após o treino de classificação: Alonso em 15o. e Piquet em 16o., e eles sabiam que tinham um carro com bom ritmo em corrida. O que fazer?

    Colocar combustível pra 12 voltas e largar leve numa pista em que a ultrapassagem é quase impossível? Qual a vantagem disso? Vai contra o bom senso. Mas tudo bem, mesmo assim adotaram essa “genial” estratégia com o Alonso.

    Chegada a 12a. volta o espanhol faz sua parada e enche o tanque.

    E na 15a. volta, antes da previsão de parada de todos os outros pilotos, acontece a incrível “coincidência” do companheiro do Alonsito perder a traseira e se arrebentar no muro.

    De acordo com as regras, Alonso que então era o ultimo, teria que se juntar ao pelotão antes que seus concorrentes pudessem fazer seus pit stops.

    Depois de todos pararem, quem seria o líder ???
    O companheiro do cara que provocou o safety car! Quanta sorte!!!

    Desculpem, não creio em conspirações… mas que existem, existem! :)

    Agora imaginem se algum profissional da F1 sugerir essa possível armação da Renault… Teriam que acabar com companheiros de equipe, ou acabar com a regra do safety car e voltar à velha bandeira vermelha, e comprometer a reputação da F1.

    Alguém discorda que faz sentido?

    Abraço a todos.

  12. Anonymous disse:

    Só a F1 parar com arrogância e copiar soluções de outras categorias. Na Indy, quando o box está fechado, os pilotos podem fazer um splash-and-go só pra ter combustível para aguentar até a abertura dos boxes, que provavelmente acontecerá na volta seguinte. Lógico que quem tiver que fazer isso vai perder posições na pista, voltando no fundo do pelotão, mas faz com que as malandragens sejam impossíveis.

  13. Anonymous disse:

    Tem que acabar essa história de 4 voltas, puniu apareceu na telinha, tem que entrar e ponto.

    4 voltas a 3 segundos mais rapido, o que era para ser 10 segundos só vira uma passagem pelos boxes.

    Vamos esperar o Info Race pra na real quanto ele ganhou..

  14. Squa disse:

    Concordo com o Leilton. Já defendi esta tese em vários outros blogs. Esta solução podia ser adotada também em casos de uso da área de escape. Se o piloto erra e corta uma chicane, ele é penalizado com X segundos com esse limitador.

  15. ILuSiOn disse:

    Eu acho que uma boa solução é colocar um limite de voltas para cumprimento da penalização.

    O piloto deverá cumprir a penalização após 3 voltas da penalidade anunciada (se é que isso já não existe)

  16. Tempest disse:

    Ainda assim, não é o método mais justo 20 ou 30 segundos. Como já foi dito, nem sempre será de má fé que entrarão nos boxes para reabastecer, pode acontecer de não haver gasolina mesmo.
    E se por exemplo acontecer de vários pilotos da ponta terem se programado mais ou menos na mesma volta e acontecer um acidente? Todos serão punidos e aí vai ser aquele samba do crioulo doido.

  17. Leilton disse:

    Safety Car? Torre manda comando remoto a todos os carros (não aos pilotos, mas sim às centralinas) e limita o giro dos motores em 50%. Box aberto para entrar e sair a qualquer hora. Simples assim.

  18. Z disse:

    o problema foi que a punição saiu muito tarde, tanto para ele como Kubica… devia ter saído logo após a entrada do safety car e ele só ia ter 3 voltas para entras, mas teve mais e abriu bastante. erro da FIA, que se preocupou mais com a punição ao Massa (aparentemente, pois sairam as informações do carro 2 antes dos outros, quando a situação do Massa aconteceu após a situação do NR e RK)

  19. Anonymous disse:

    capilli,

    enrolou, enrolou, enrolou, e não consegui entender o pq o rosberg foi “malandro” ai nesse negocio e não foi punido. poderia explicar melhor??

    abraço

  20. Filipe Furtado disse:

    Desculpa Capelli, mas a transmissão mostrou o engenheiro do Nico pedindo pra ele passar o pesadissimo Trulli para salvar a estrategia de parada cedo. E o que salvou o Nico (que se beneficiou mesmo) não foi a entrada cedo mas a não parada do Fisichella. Se tivesse voltado atras do Force India (como Kubica) ou se o Fisichella tivesse ido para os boxes a corrida do Rosberg teria sido tão arruinada quanto a do polones. Só que tinha o Fisico lá fazendo voltas de 1m50 e segurando todo mundo enquanto o Rosberg sem trafego podia girar voltas na casa de 1m46 ou 1m47. Abriu uma eternidade em 7 ou 8 voltas e se safou da punição. Me parece que faltou bom senso aos comissarios de perceber o que o fator Force India segurando todo mundo signficaria para a punição, era muito fácil ter anunciado bem mais rapido a punição ao Rosberg já que não tinha o que discutir.

  21. Raul Costa disse:

    Boa análise

    não tinha pensado nisso.

    Acho que tem é que parar de fechar os boxes, não? Aí todo mundo tem a vantagem…

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