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5 de outubro de 2008 - 23:23Curiosidades, História

Operação Fangio


Em 2 de outubro passado, completaram-se 50 anos de um dos mais inusitados acontecimentos da história do automobilismo: o seqüestro de Juan Manuel Fangio, organizado por guerrilheiros cubanos.

O misterioso Monocromático, do excelente blog Histórias da Fórmula 1, relembrou esta história semana passada, com um ótimo texto que reproduzo aqui. Vale cada linha.

“Esses são meus amigos, os seqüestradores.”

Há 50 anos ocorreu um dos fatos mais insólitos na história dos Grandes Prêmios. Em fevereiro de 1958 seria disputado o segundo Grande Prêmio de Cuba, na capital Havana, prova extra-campeonato que contava com pilotos e carros do Campeonato Mundial de Fórmula 1. A presença mais ilustre era a do já pentacampeão mundial Juan Manuel Fangio, convidado pela organização da prova.

O Grande Prêmio de Cuba havia sido planejado pelo ditador Fulgêncio Batista, à época enfrentando problemas com a guerrilha baseada em Sierra Maestra, o Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel Castro, para tentar aumentar o prestígio do seu regime, e, com alguma sorte, atrair as atenções de possíveis aliados para os problemas internos da ilha. Juan Manuel Fangio se tornou, involuntariamente, uma peça chave nos esquemas do ditador… e dos guerrilheiros.

Na noite anterior ao Grande Prêmio, Fangio se reunia com seus mecânicos no saguão do Hotel Lincoln, e estava confiante na vitória no dia seguinte. De repente, um homem armado com uma pistola 45 mm irrompeu, apontando a arma para Fangio e dizendo: “Desculpe Juan, mas terá que me acompanhar.” Era um membro do Movimento 26 de Julho. Todos permaneceram imóveis. O piloto Alejandro D’Tomaso, que estava presente, fez um breve movimento com as mãos, ao que o seqüestrador respondeu aos berros: “Cuidado, se mexer eu atiro! Outro movimento e os mato!” Fangio, no entanto, parecia tranquilo, e não resistiu (de princípio, pensava ser um trote do seu empresário, que estava presente). O homem armado, com a arma apontada para suas costas, o levou para fora do hotel até a esquina, onde um carro os esperava.

Após uma hora escondido no chão do carro, Fangio chegou ao lugar que supunha ser o cativeiro. Entrou em uma casa por uma escada de incêndio. Em um quarto, uma mulher com um filho, em outro, um homem ferido. Os homens saíram, deixando dois companheiros de guarda do argentino. Momentos depois, o levaram novamente a um novo veículo, que o conduziu, de olhos vendados, até uma casa num bairro nobre de Havana. Ali havia muita gente festejando o sucesso da operação. Alguns pediam autógrafos. E El Chueco, amigável, chegou a reclamar que não havia jantado ainda.

Aliás, um ato de terrorismo logo se transformou numa das lembranças mais agradáveis da carreira de Fangio. Embora El Chueco nunca se definisse politicamente, na ocasião simpatizava com movimentos de esquerda e sabia da situação ruim que a ilha vivia desde o golpe de Batista em 1952. Naquela noite, a dona da casa lhe serviu batatas fritas com ovos, que ele comeu com gosto. Na manhã seguinte, o revolucionário Faustino Perez, um dos mentores de toda a operação, lhe trouxe os jornais, e atendeu imediatamente o pedido do argentino de que avisasse a sua família sobre o ocorrido. Ele apenas se recusou a assistir a corrida pela TV. O circuito, montado na parte costeira da capital, possuía um salto numa reta que fazia seu Maserati 450S quase se desmanchar ao tocar o solo. A corrida foi interrompida por causa de um acidente com dois carros (6 pessoas morreram, 40 feridas), e Fangio, depois, pensou que o destino lhe enviara os seqüestradores para poupá-lo dos perigos do percurso. “Senhores, vocês me fizeram um favor”, disse aos raptores.

O objetivo do grupo era manter Juan Manuel Fangio em cativeiro até o término da corrida. Terminado o prazo, pensaram em como fazer isso sem correr riscos, pois uma morte acidental de Fangio num tiroteio (ou até se fosse assassinado por homens do ditador) faria muito mal à imagem do Movimento. Então Fangio sugeriu que o levassem até a embaixada argentina (cujo embaixador era primo de Che Guevara). Ao ser deixado lá por uma mulher e dois jovens, Fangio, sorridente, os anunciou: “esses são meus amigos, os seqüestradores”, e obteve garantias de que nenhum mal seria feito a eles naquele local. Foram 26 horas de cativeiro.

Do dia para a noite, Fangio se tornou muito popular nos Estados Unidos, que acompanhavam com apreensão os acontecimentos em Cuba (estranhamente, Fidel Castro era uma figura bastante popular entre os jovens americanos, antes de firmar acordos bélicos com a União Soviética). O argentino notou, posteriormente, que “depois de 5 vezes campeão mundial, de ter vencido em Sebring, foi o seqüestro em Cuba que me fez popular nos Estados Unidos”.

Os revolucionários venceram esse jogo, pois Fangio se tornou uma espécie de embaixador do movimento ao mostrar para a imprensa de todo o mundo que o seu seqüestro não foi algo tão hediondo, e que as intenções dos revoltosos eram boas. A repercussão foi positiva para o Movimento 26 de Julho.

Seu envolvimento com a Revolução não acabou ali. Ainda naquele ano, intercedeu ao general Miranda para que o rapaz que o raptara no hotel, então preso, não fosse maltratado. Quando Fidel Castro assumiu o poder, enviou um convite a Fangio para uma visita a Havana, que ele não pôde atender. No aniversário de 25 anos da Revolução, o argentino recebeu um telegrama de Fidel com saudações de “seus amigos, os seqüestradores”, recordando que “mais do que um seqüestro e detenção patriótica, serviu, junto com sua novre atitude e justa compreensão, à causa de nosso povo, que sente por você grande simpatia, e em nome da qual o saudamos por um quarto de século.” Recebeu uma carta semelhante do governo cubano na ocasião do seu 80º aniversário, novamente remetida pelos “seus amigos, os seqüestradores”.

Hoje, na entrada do Hotel Lincoln, há uma placa de bronze, onde se lê: “Na noite de 24-2-58, neste mesmo lugar, foi seqüestrado pelo comando do Movimento 26 de Julho, dirigido por Oscar Lucero, o cinco vezes campeão mundial de automobilismo Juan Manuel Fangio. Ele significou um duro golpe propagandístico contra a tirania batistiana e um importante estímulo para as forças revolucionárias.

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comentários

10 comentários

  1. Gabriel Medeiros disse:

    Apesar de tudo, da gente nao ter muita finidade em nossas conversas, esse texto foi OTIMO, Capelli. Maravilhoso, nao conehcia essa historia.

    E, agora que escrevo no Blogsport, tou sempre por aqui, pra ler e comentar.

    Maravilhoso texto, novamente, de seu novo colega da blogosfera, Nabuco.

  2. Igor disse:

    Muito bom, muito bom.

    Adorei a história em si, mas também o texto como foi escrito, dá gosto de ler.

    Poste mais dessas histórias Capelli.

  3. Ricardo Reno disse:

    Muito bacana aquele tempo. A F-1 era romantica, os pilotos simpáticos e os movimentos de libertação eram, digamos, mais amenos.Nada a ver com os dias de hoje, mas fazer o que é nessa época que vivemos.

  4. Sheldonn Rêis disse:

    Interessantíssimo. Grande Fangio e que estória.

  5. Alexandre disse:

    Nossa, eu nunca tinha ouvido falar nisso.
    Li com muito entusiasmo. Muito legal mesmo isso ai.
    Parabéns pela divulgação.

  6. Luís Morais disse:

    Foi a melhor história sobre F1 que já li.

    Muito bom Capelli ter divulgado esse texto. Eu ‘conheço’ o Mono, e sei que é um doidão que tem ótimas histórias, e essa foi excelente.

  7. Germano disse:

    essa é uma das histórias q eu mais gosto do Fangio…

  8. Reginaldo Silva disse:

    Belo post muito bom
    venha conferir o meu blog
    http://formula1stats.blogspot.com/
    adicionei o seu

  9. Anonymous disse:

    Legal o texto. Mas, afinal, foi em fevereiro ou em outubro?

  10. Anonymous disse:

    esse ano passou um filme no Canal Brasil que conta essa história, eu vi, muito bom o filme. Mas passou só uma vez e não consegui achar mais nada sobre o filme na internet… uma pena. Se não me engano o filme é de 1998 e no final passa a frase de alguém que não lembro dizendo que nunca mais um piloto conseguiria ganhar 5 titulos mundiais.

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