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9 de março de 2009 - 8:22Curiosidades, História, Pergunte ao Capelli

Pergunte ao Capelli: Brabham-Ventilador

Fotos: Arquivo

Fotos: Arquivo

Fala Capelli! Meu nome é Júlio, vi essa Brabham (que não sei o ano), a frente normal… Mas na traseira…. Que diabos é isso? Um exaustor? – Júlio Tiyoda

Quase isso, Júlio. Este modelo é o Brabham BT46B, versão do BT46 utilizado pela equipe na temporada de 1978. Chamado de carro-ventilador, certamente foi uma das mais exitosas e fugazes inovações da história da Fórmula 1.

Do início. Gordon Murray, genial projetista da equipe de Bernie Ecclestone, desenhou um carro absolutamente inovador para a temporada de 1978. Além do computador de bordo e dos freios de fibra de carbono, inéditos até então, o BT46 tinha um design arrojado, com uma aerodinâmica limpa e formato piramidal. Mas a inovação mais radical veio da parte mecânica. O modelo originalmente não possuía radiadores, mas sim um sistema de painéis de refrigeração na superfície, o que deixou suas saias laterais de perfil bastante baixo. Na imagem abaixo, é possível visualizar tais painéis de troca de calor, são as placas brancas posicionadas na lateral do bólido.

Foto: Arquivo

Foto: Arquivo

Porém, antes mesmo da temporada começar, a equipe percebeu que tal solução não funcionaria. Os pesados motores 12 cilindros da Alfa Romeo ferviam e Murray entendeu que precisava de radiadores convencionais. Para não prejudicar o projeto como um todo, posicionou os radiadores abaixo do aerofólio dianteiro. Mas tal solução provocou desequilíbrio de peso no carro e prejudicou bastante a aerodinâmica limpa do bólido. Além disso, o grande e pesado motor da Alfa não permitia que o solo do carro ganhasse o desenho característico de asa invertida, solução inventada pela Lotus para que seus carros “grudassem” no chão e que deu início à era dos carros-asa.

Murray continuou trabalhando em busca de uma solução para o projeto, até que teve uma ideia que resovia os dois problemas: um ventilador. Posicionado na traseira do carro e ativado mecanicamente pela rotação do motor, as hélices começavam a girar a partir de 7.000 RPM, dissipando o calor e gerando como efeito colateral um grip mecânico fantástico, fazendo o carro colar no asfalto. O ventilador gerava, mesmo sem ser um carro-asa, um desejável efeito-solo.

O carro foi levado para o GP da Suécia e gerou polêmica assim que foi para a pista. Já nas primeiras voltas de treino o BT46B se mostrava capaz de bater as até então soberanas Lotus 78 de Mario Andretti e Ronnie Peterson, gerando protestos das demais equipes. Todas entenderam que o ventilador atuava como uma peça aerodinâmica móvel, mas a argumentação da Brabham de que o dispositivo servia para refrigeração do motor acabou aceita e o carro pôde disputar a corrida. Mesmo assim, como toda cautela é pouca, Bernie Ecclestone pediu que John Watson e Niki Lauda disputassem a classificação com tanque cheio. E as duas Brabham ficaram com o segundo e o terceiro lugares do grid, uma demonstração da incrível superioridade do carro-ventilador.

Na largada, Niki Lauda pulou para segundo e ficou escoltando a Lotus de Mario Andretti durante quase 40 voltas, até dar o bote e assumir a liderança. Voltas depois, o norte-americano abandonou com problemas de motor e Lauda disparou na frente, conquistando uma esmagadora vitória. Para se ter uma ideia, sua melhor volta foi quase um segundo mais rápida que as voltas dos demais, sem contar a Lotus de Andretti.

Tamanha superioridade fez com que a inovação continuasse a ser contestada, até que Bernie Ecclestone, sabendo que perderia a queda-de-braço, acordou com as equipes rivais em usar o carro-ventilador em apenas mais três corridas para depois abandoná-lo. Todos assinaram o acordo, mas assim mesmo o BT46B acabou definitivamente banido da F1. Uma comissão instituída para avaliar o caso concluiu que o dispositivo colocava em risco a segurança dos adversários, pois o ventilador poderia lançar pedras contra os carros que viessem atrás. O argumento parece absurdo, mas se levarmos em conta que seis anos antes Helmut Marko havia perdido a visão do olho esquerdo ao ter uma pedra lançada contra sua viseira no GP da França, ele passa a fazer algum sentido.

E foi assim, sem nenhuma despedida formal, que o bem-sucedido BT46B deu um súbito adeus à Fórmula 1. Um verdadeiro “one hit wonder”.

Comentários do Facebook

comentários

31 comentários

  1. DADO disse:

    CARRO FANTÁSTICO!

  2. Lucas disse:

    Boa Noite,Capelli
    gostari de saber se voçe conheçe alguma documentario que fala sobre a fabricação de um carro de f1?

  3. artur melo disse:

    Olá Capelli
    Por onde anda o Josil Josè Garcia?
    A proposito: vc.tem alguma relação com os Capelli de Jacareí SP?
    Abraços
    Artur

  4. Alexandre Tambelli disse:

    Capelli! Boa noite! Parabéns pelo site!

    Gostaria se possível que me respondesse esta pergunta:

    Qual foi a última corrida de Fórmula 1 que não tivemos nenhum piloto brasileiro?

    Um abraço,

    Alexandre!

  5. NetoGolias disse:

    Então … por onde anda Christian Fittipaldi ?

    Procurei informações na internet sobre as atividades atuais do piloto,
    não econtrei nada … mesmo um site dito como oficial está inativo …

    Obrigado.

    Sucesso

    NetoGolias

  6. rubrns filho disse:

    Mestre para obter a resposta da pergunta do dia 21/05/2009 tenho que assinar o ssr mas eu não consegui. como eu faço?

  7. Gilberto Salomao disse:

    Boa tarde
    Por favos me tirem uma dúvida:
    em alguns carros da F1 logo a frente do cockpit pintado no caput tem um “N” dentro de um círculo. O que significa?
    Atenciosamente
    Gilberto Salomao

  8. Lino Palladino disse:

    E eu achando que conhecia bem os anos 70… Nunca soube do Piquet ter guiado a Brabham Alfa Romeo BT46B “ventilador”… Que coisa…

    A desculpa encontrada para proibir esse carro foram sim “estranhas”, o fato é que se não parassem no início com essa idéia imaginem no que daria…

    Gordon Murray era um grande gênio na arte de burlar as regras, e nessa época ele estava apenas começando com suas “trapaças”, que eu lembre essa foi apenas a primeira delas…

    Ventilador em 1978, altura variável em 1981, freios refrigerados a água em 1982, gasolina adulterada em 1983…

  9. Daniel Ramos De Oliveira disse:

    Ótima idéia desse ventilador na traseira do carro,mas eu penso e se algum piloto batesse na traseira e pegasse bem nesse aparelho,eria detonar com o carro que bateu todo,além de dá um baita prejuízo pra a Brabham.E bem que o Bernie Ecclestone poderia trazer a Brabham de volta,eria ser muito legal ver ele comandando a equipe novamente,além de ser mais uma no Circo da F1,que em 2010 vai ter 11 equipes(se a USF1 realmente entrar pro circo e se a Brawn GP continuar).

  10. Outro dia assisti na íntegra essa corrida com a vitória do fan-car. Sensacional, mesmo. Uma pena que hoje em dia inovações desse tipo não sejam mais permitidas nem em sonho.

  11. Carlos Malfitani disse:

    Boa tarde Capelli.

    O Brabham BT46 era B12 (boxer, ou plano, como preferir)… inclusive era essa arquitetura de motor, que impedia os Brabham adoterem o carro asa de imediato…Os alfa viraram V12 para 1979… jstamente para permitir a construção de um carro asa….tanto pela brabhma, como pela Alfa…que reestreiava equipe própria na f-1 naquele ano, com o modelo 179…

    Luiz G, o Lauda, pilotou toda a temporada de 1978…ele abandonou as pistas de F-1 pela primeira vez nos treinos do GP do Canadá de 1979, quando já pilotava um BT-48…Sendo substituido de imediato pelo Ricardo Zunnino…

    Abraços à todos.

  12. Luciano disse:

    Anos depois Murray usaria sua idéia para criar um dos melhores esportivos do mundo o MCLAREN F1…

  13. Janus disse:

    Mas Lucas, pelo seu comentário fica parecendo que o McLaren F1 de rua atinge essa velocidade toda devido aos ventiladores escondidos. Na verdade, penso que eles ajudem mais a criar estabilidade em curvas, mas não interfiram muito na velocidade final, não concorda?

  14. Janus disse:

    Boa Rianov, não me lembrava que era no seu blog que tinha visto isso. Valeu pelo link!

  15. Tuta disse:

    Sem contar que era lindo. Não vi os radiadores na foto. E quem jogou a pedrita não foi um tal de E. Fittipa?

  16. Lucas Orly disse:

    Na verdade, a exemplo de quase tudo que o Gordon Murray fazia, ele nunca abandonava seus projetos, sempre repetia em algum empreendimento futuro. Foi assim com a Brabham BT55, q foi aperfeiçoada na McLaren MP4/4 e por aí vai.

    o Fan-Car ñ fugiu dessa regra, pois ele existe até hoje num dos carros de rua mais rápidos do mundo (inclusive é o responsável por essa performance), que é o McLaren F1 e que além do motor de 6 litros tem 2 ventiladores escondidos que fazem o carro andar mais rápido pelo efeito-solo, dispensando qualquer aerofólio e tem 386 km/h de velocidade final

  17. Eu confirmo o Janus no 1º post.

    Piquet pilotou sim o Fan-car, mas se deu mal pois os pneus que a Brabham usava em 79 eram maiores dos que os de 78, o que deuixava o carro alto demais para que o efeito solo atuasse bem.

    Tem umas fotos do fato aqui: http://f1nostalgia.blogspot.com/2008/11/o-que-voc-esta-fazendo-ai-nelson-piquet.html

    Abraços

  18. Eduardo Casola Filho disse:

    Bons tempos, em que a genialidade dos projetistas era algo assombroso, agora todo mundo usa chifres nos carros, desse jeito, Reginaldo Rossi poderia ser projetista, pois ele só fala de chifres!!!!!!!

  19. Arthur Simões disse:

    O Fan-car…

    Se bem que poderia acontecer algo semelhante com o que aconteceu ao Helmut Marko em um carro padrão da época.

    Por exemplo,uma ultrapassada McLaren M26 que também correu nessa corrida,poderia muito bem jogar uma pedra no carro que vem atrás.
    Ou seja,foi uma desculpa bem esfarrapada.Mas fazer o que?

    Seria muito mais fácil banir o carro,do que todas as outras equipes quebrarem a cabeça pra montar um carro tão bom quanto o “Fan-car”.

    Abraços!

  20. Onyas disse:

    Que carro sensacional. De uma criatividade que hoje é impossível.

  21. Mário Salustiano disse:

    Capelli e amigos,

    bela explanação, assisti a corrida e foi fantastico o desempenho do carro, pelo que li as equipes ficaram impressionadas com o desempenho do bt46b e ficaram preocupadas em não poder reverter o dominio da Brabham, isso permitiu que Bernie enxergasse a possibilidade de aumentar seu poder junto a recem criada FOCA e chegou a um acordo com as demais equipes de aposentar o BT46B em troca de mais poder, já nessa epoca ele enxergava a possibilidade de se transformar num grande imperador do esporte, fato que se concretizou apenas tres anos depois (1981) com o pacto de concorde, quando foi delegado a FOCA a gestão comercial da F1, o resto estamos acompanhando até hoje, um dominio de bate o de grandes ditadores da politica, fazendo o reinado de Bernie um dos mais longos do esporte em geral
    abs
    Mário

  22. PAULO SANTOS/RJ disse:

    Será que se colocassem esse carro na água ele andaria (ou nadaria)?
    Estranhaço esse aparato.
    Abraço a todos

  23. Romário Jr. disse:

    Rola no tapetão que ele (Ecclestone) aposentou o bólido em troca de mais poderes na gestão da categoria… Não foi em 1978 que começou o seu reinado?

  24. Smirkoff disse:

    A história é ainda mais épica quando se sabe que o projeto do ventilador, os testes e a vitória se deram em pouco mais de um mês, num dos típicos “estalos” do Murray. Ao mesmo tempo ele já trabalhava no projeto do BT47, que seria um carro “asa-ventilador”, juntando as duas idéias. O projeto foi arquivado assim que o BT46B foi considerado ilegal.

    Mas o BT46 “normal” não era um carro de todo ruim. O próprio Murray admite que, não fosse o desempenho excepcional das Lotus 79, e a distração de construir o carro ventilador no meio do campeonato, Lauda poderia ter sido o campeão daquela temporada.

  25. Sandro disse:

    São caras gênios como o Murray e o Chapman que fazem falta na F1 atual, embora teriam sua criatividade mais serciada pelo tanto de “isso não pode” dos regulamentos atuais.
    Agora foi realmente rídicula a desculpa das pedras, se fosse por ai deveriam então cobrir as rodas dos F1 com paralamas…

  26. Wellinghton disse:

    Quero registrar que, na época, assisti a corrida e me lembro que Lauda, mencionava que durante a corrida tinha a impressão de andar em um carro com ar-condicionado(!!!!)..foi fantástico o desempenho….pena que não foi permitido evoluir com o projeto mais….Gordon Murray é fantástico..pena que não trabalha mais na F-1.

  27. Luiz G disse:

    …E após a rejeição do carro, qual foi o desempenho da Brabham no resto daquela temporada?

    …Isso teve algo a ver com a aposentadoria de Lauda no fim daquela temporada?

  28. Cesar Costa disse:

    Só um detalhe: a idéia dos ventiladores traseiros foi do Jim Hall nos Chaparral, alguns anos antes, assim como as saias laterais e aerofólios

  29. Vi um pouco sobre isso na falecida F1 Racing brasileira
    ;D

  30. Janus disse:

    Apenas para complementar, o fan-car foi utilizado ainda pelo menos uma vez em provas, que eu me lembre, em 1979 em uma prova extra-campeonato (acho que era no Gunnar Nilsson memorial Trophy, mas precisaria verificar)). Quem guiou foi Nelson Piquet.

    O argumento de que ele poderia jogar pedras era meio furado mesmo, já que o acidente com o Marko foi causado principalmente pela fragilidade da viseira que ele usava, o que já tinha sido corrigido nos anos seguintes.

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