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22 de março de 2010 - 23:55Box, Curiosidades, História

25 anos de GP da Austrália – parte 1

A história dos Grandes Prêmios da Austrália válidos pelo Mundial de Fórmula 1 começa há exatos 25 anos. Não que antes nunca tenha havido corridas na terra dos aborígenes, mas o fato é que as provas de F1 lá realizadas anteriormente aconteceram como corridas extra-oficiais, sendo algumas delas válidas pela Tasman Series. Mas isso já dá outro post.

A Austrália entrou pra valer no mapa da categoria a partir de 1985, quando o circuito urbano de Adelaide passou a sediar a corrida, sempre a última da temporada. Lá aconteceram 11 Grandes Prêmios até 1995, quando as características da prova australiana mudaram por completo. Passou do final para o começo do calendário e trocou as ruas de Adelaide pelo traçado dentro de um parque em Melbourne.

A série de três posts que se inicia hoje conta diferentes momentos do GP oceânico. O primeiro, fala de algumas divertidas corridas – quase que recreativas -, que marcaram o encerramento de várias temporadas. Amanhã, o post será sobre as duas decisões de título que lá aconteceram, em 1986 e 1994. E na quarta-feira, um pouco da história mais recente, com algumas corridas já disputadas no Albert Park.

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Tempo de confraternização

Cidade litorânea ao sul da Austrália, Adelaide quase sempre sediou corridas mais relaxadas, uma espécie de confraternização de fim de ano. Não por acaso: todos os GPs lá disputados encerraram as temporadas, sendo que nove dos onze aconteceram já com o título do campeonato definido. Assim, as equipes e pilotos dirigiam-se à Oceania para quase que celebrar o ano que passou e engatar um início de férias num lugar agradável à beira-mar.

O clima festivo proporcionou corridas bastante diferentes. Para se ter uma ideia, Ayrton Senna correu no sacrifício em 1988, logo após ser campeão no Japão, por ter machucado o pulso jogando futebol na véspera do GP. Algo impensável durante a tensão normal de uma temporada.

São situações como essas que ajudam a explicar como, em nove corridas que ocorreram nessas condições, apenas uma vez o campeão da temporada venceu. Foi em 1991, quando Senna ganhou a mais curta corrida da história da Fórmula 1, que durou apenas 14 voltas. O temporal foi tamanho que a prova foi interrompida logo cedo e os pontos, contados pela metade.

Na prova de estreia, em 1985, Keke Rosberg deu show e conquistou sua última vitória na F1. Mas o show mesmo foi de Ayrton Senna, que fez uma espécie de corrida circense. Saltou por sobre zebras, perdeu o aerofólio dianteiro de sua Lotus e deu até um passeio por baixo das arquibancadas temporárias. Depois de castigar tanto seu carro, abandonou com problemas mecânicos, como era de se esperar.

Berger bate de propósito em Arnoux. (Foto: Reprodução/Forix)

Berger bate de propósito em Arnoux.
(Foto: Reprodução/Forix)

Três anos depois, um outro abandono, mas premeditado. Gerhard Berger sabia que sua Ferrari não tinha a menor chance na corrida. O motor consumia muito combustível e, à época, o reabastecimento era proibido. Para chegar ao final, precisaria andar lentamente. Como a corrida já não valia mais nada mesmo, resolveu dar show. Saiu com pouca gasolina e foi para o ataque. Ultrapassou as imbatíveis McLaren de Senna e Prost e disparou na ponta. Até que encontrou o retardatário René Arnoux. Viu ali a chance de um grand-finale: jogou seu carro por dentro e forçou uma batida com o francês. Como o piloto da Ligier era maluco e fechava todo mundo mesmo, ninguém desconfiou que tivesse sido um acidente premeditado. E Berger saiu de Adelaide como o herói do dia. E Arnoux, coitado, foi o retardatário vilão da vez.

Climão nos bastidores e corrida espetacular

Mas poucos GPs da Austrália foram mais empolgantes do que a edição de 1990, que entrou para a história como a 500ª corrida da história da F1. Senna e Prost brigaram pelo título até o GP do Japão, que encerrou a disputa com o infame acidente entre ambos na largada. Na Austrália, duas semanas depois, o clima ainda era péssimo. O brasileiro discutiu rispidamente com o tricampeão Jackie Stewart durante uma entrevista, com o escocês batendo firme na questão da falta de desportividade demonstrada em Suzuka. Prost, furioso, negou-se a posar para uma foto comemorativa ao lado dos campeões mundiais vivos lá reunidos, só para não ficar perto de Senna.

Na pista, no entanto, não houve faíscas entre eles. Ayrton largou na pole, disparou na frente e não tomou conhecimento de Prost na prova. Rumava para uma vitória até tranqüila, até que sofreu um problema de freios, bateu na barreira de pneus e abandonou. Nigel Mansell, com a Ferrari, assumiu a liderança e parecia vencer com tranqüilidade, até ser surpreendido pela zebra Nelson Piquet. Sua Benetton, ainda que tivesse vencido no Japão, não era o carro mais competitivo e dificilmente ganharia uma corrida com McLarens e Ferraris na pista. Mas Piquet elaborou uma estratégia de não trocar pneus e surpreendeu o piloto inglês. Manteve-se à frente com dificuldade, enquanto Mansell vinha rápido com pneus novos. Na última volta, o Leão tentou o bote por dentro na curva mais fechada do circuito, a poucos metros do final. Sem medo, Piquet fechou a porta e, por milímetros, os dois não se chocaram. Vitória do brasileiro, na chegada mais emocionante de todos os GPs da Austrália.

Senna e Prost fazem as pazes. (Foto: Reprodução/Adrivo.com)

Senna e Prost fazem as pazes.
(Foto: Reprodução/Adrivo.com)

A reconciliação de dois grandes nomes

Se por um lado a corrida de 1990 viu o auge da inimizade entre Senna e Prost, três anos depois Adelaide foi palco da reconciliação dos dois campeões. O francês se despedia da Fórmula 1, enquanto que o brasileiro dava adeus à McLaren. Numa prova histórica, a vitória foi de Senna, com Prost em segundo. Na garagem, depois de anos de frieza e inimizade, Ayrton estendeu a mão a Alain e ambos trocaram um cordial cumprimento. No pódio, Senna ergueu algumas vezes o braço de Prost, campeão daquela temporada, como que num reconhecimento público da importância que o francês teve em sua carreira e na história da categoria. Foi a última vitória de Senna e o capítulo final de um dos maiores – e mais controversos – duelos da história da F1.

Mas em 1989, por exemplo, a corrida foi tensa. Logo após o polêmico GP do Japão, o qual Senna venceu mas foi desclassificado depois de um acidente com Prost, o título já estava decidido em favor do francês. Porém, Senna e a McLaren aguardavam julgamento de um recurso e esperavam vencer em Adelaide para que o título trocasse de mãos no tapetão. No dia da corrida, um temporal desabou sobre o circuito, deixando a pista absolutamente sem condições. Enquanto a maioria dos pilotos se organizava para evitar a largada, Ayrton Senna era um dos poucos que permanecia no cockpit aguardando a volta de apresentação. A direção de prova autorizou o início das atividades assim mesmo, com vários pilotos percorrendo o grid a pé. A largada, com nem todo mundo alinhado ainda – vários carros ainda estavam em volta de apresentação -, foi uma zona. Tanto que, logo depois, foi anulada. Alain Prost, que havia largado da primeira vez, recolheu-se aos boxes na primeira passagem e não voltou para a segunda partida. Senna largou de novo, manteve-se na ponta mas acabou abandonando depois de um acidente com Martin Brundle. O brasileiro não viu a Brabham do inglês por causa da forte chuva e acertou-lhe em plena reta. Foi o fim do sonho do título, ainda que pelas vias judiciais. A vitória foi do correto Thierry Boutsen, com a Williams. Sua segunda vitória na carreira, a segunda sob forte chuva.

Adelaide se despede com corrida maluca

A despedida de Adelaide aconteceu em 1995. Melbourne passaria a sediar o GP da Austrália a partir do ano seguinte e a corrida aconteceu sob um clima esquisito. Mika Hakkinen sofrera um acidente nos treinos de sexta-feira e estava em coma no hospital. Michael Schumacher, já bicampeão, despedia-se da Benetton e sofreu um acidente com Jean Alesi, que o substituiria na equipe italiana. David Coulthard, que liderava a prova, bateu na mureta dos boxes quando faria seu primeiro pit stop. Praticamente todo mundo foi abandonando e o caminho ficou livre para Damon Hill, que ganhou com duas voltas de vantagem para o segundo colocado, o francês Olivier Panis, que disputou as últimas voltas com o motor Mugen-Honda de sua Ligier soltando fumaça para todo lado. O pódio foi completado por Gianni Morbidelli com a Arrows, ele que só voltou a correr porque o dinheiro de seu substituto, Max Papis, tinha terminado. Foi uma despedida bastante inusitada para um dos circuitos mais divertidos da Fórmula 1.

Comentários do Facebook

comentários

44 comentários

  1. Denian disse:

    eu quero muito um dia assistir na austrália

  2. George McCrae disse:

    Saudades deste GP (em Adelaide) que quando encerrava a temporada sempre tinha ótimas disputas e muitas vezes coroava pilotos que passavam a temporada às escuras, exemplos de Boutsen (1989) e Piquet (1990). Normalmente era o GP mais tranquilo da temporada porque na maioria das vezes o título já estava decidido no Japão.

  3. Impressionante como que tudo que o senna faz é show… até aquela sandice de 1985…

  4. Pedro Migão disse:

    Caro Cappelli, uma pequena correção: a primeira vitória de Boutsen, na Hungria em 90 foi debaixo de um sol abrasador. Foi nesta corrida que o Mansell fez uma ultrapassagem de almanaque sobre o Berger e depois foi jogado pra fora pelo Senna no mesmo ponto do circuito.

    Piquet, cheio de problemas, ainda foi terceiro.

    • Jonatas disse:

      Não, não… A primeira vitória do Boutsen foi no Canadá nesse ano de 1989, em que choveu também mas não tanto quanto na Austrália…

      A vitória em Hungaroring foi sim em 90 com sol escaldante mas essa foi a terceira e última vitória de Boutsen na F1

      Piloto aliás que na minha opinião foi de certa forma injustiçado na categoria… Se não era um piloto arrojado, determinado, compensava na forma corretíssima e “redonda” com que pilotava… Fez grandes temporadas em 89 e 90… Em 91 foi preterido pela Williams e sua carreira entrou em declínio, e terminou melancólicamente em 1993, na Jordan-Hart..

  5. Thiago Schauenberg Pereira disse:

    Boa matéria, aguardando os próximos capítulos…

  6. [...] | Blog do Capelli, Grand Prix, Farzadsf1 , Youtube (vários), Wikipedia (vários), Revistas Autosport Fotos | [...]

  7. Eduardo disse:

    Sempre achei estranha essa historia do Senna passar por baixo da arquibancada. Eu já tinha visto uns videos no youtube, e tem uma imagem que parece que ele passa por baixo da arquibancada, mas na verdade é só o ângulo da câmera que dá essa impressão. Só que agora tu comentando isso no teu blog me deixou com uma dúvida, tem alguma imagem disso acontecendo? Ou não aparece nesses highlights de youtube?

  8. Rodrigo Rocha disse:

    Foi o último pódio de Senna e de Prost… se existe uma corrida que pode ser considerada como o fim de uma era na F1, essa corrida é o GP da Austrália de 1993. Só que ninguém sabia disso…

  9. João Rafael disse:

    Mais um ótimo Capelleti, hehehe.

    Nesse GP de 1989 o Piquet mandou uma sensacional pro Senna. Quando avisado por um repórter inglês que Ayrton estava no carro aguardando a largada, Nelson manda algo do tipo: ‘Ele é assim.. Ele só se importa com ele, não liga para os outros pilotos.’

    Engraçado que, mais tarde, Senna seria um dos pilares da ‘era da segurança’ na F1.

    Abraços !

    • Oswald K. disse:

      Bom, o Ayrton ainda “lutava” pelo título, né…
      Nada mais natural que ele estivesse doido para ter corrida.
      Nelsão não perdia uma. hahahahahaha

  10. Wagner Ponce disse:

    Adelaide era aquele típico circuito de rua onde tinhamos muitas ultrapassagens… Não tem como esquecer aquela última volta de 90, quando o Piquet defendeu de forma brilhante a primeira colocação. Ver o Nelson bringando com o velho leão era algo incomum… Aliás, as duas últimas vitórias do Piquet foram em cima de Nigel Mansell, nessa com a grande tática de não parar e a defesa inesquecivel… e na outra foi no Canadá quando Mansell teve aquela pane no final e o grande Nelsão saiu se cagando de rir!!! Bons tempo da F1.

  11. Eduardo Casola Filho disse:

    Seja Adelaide, seja Melbourne, o GP da Austrália é sempre uma doideira só!

    Eu adoro as corridas da terra dos cangurus!

  12. ELF_TL72 disse:

    Essa história do Berger é a síntese do way of life dele. Simplesmente divertidissima.
    Esse GP de 1991 não foi a despedida do Piercarlo Ghinzani? Não me lembro se foi o Senna que bateu nele, mas sei que ele quebrou a perna, saiu do carro pulando e xingando todo mundo… na sua última corrida, levou um gesso de recordação para casa.

    • ELF_TL72 disse:

      Me corrigindo: foi em 1989, e quem bateu no Ghinzani foi o Piquet, com a Lotus. E se eu não estou errado de novo, a Minardi andou em segundo nessa prova por algumas surpreendentes voltas.

      • Nikolas Spagnol disse:

        Nessa prova de 89 o Martini tinha classificado sua Minardi em 3º lugar, mas como o Prost não participou da relargada foi promovido a segundo, servindo como um “escudeiro” pra Senna nas primeiras voltas. Quando os outros pilotos conseguiram se livrar dele, o Senna já estava muitos segundos à frente, e teria vencido com facilidade se não tivesse achado a Brabham do Brundle no meio do temporal…

      • Capelli disse:

        Isso mesmo.

  13. JocaBrazil disse:

    Eu trabalho na frente do hotel onde a Ferrari esta aqui em Melbourne, tenho visto um ou outro com o uniforme do time nos ultimos dias. Mas agora a pouco estavam 12 vans com o emblema da Ferrari aqui na porta no hotel e aquele monte de gente, engenheiro, mecanico o tiozinho da limpeza e o italiano comendo solto. Ainda nao estava empolgado, mas depois desse encontro eu nao vejo a hora de abrirem os portoes do Albert Park…

  14. RT @ivancapelli: 25 anos de GP da Austrália – parte 1 http://bit.ly/aYkOdM

  15. TUTA disse:

    Lembro de Adelaide com detalhes e saudade, porque no GP1 ou GP2 era a minha pista predileta.

  16. MAX disse:

    Mandou bem heim Capelli!!

  17. Verde disse:

    Excelente!

    E mesmo as outras não citadas tiveram algo de interessante.

    Em 1987, teve o pontinho do Roberto Moreno em uma AGS com fundo de madeira.

    Em 1992, o acidente do Senna com o Mansell na única corrida em que a McLaren funcionou tão bem como a Williams.

    E em 1993, teve a despedida do Senna em uma corrida que até assustou pela facilidade com que o brasileiro dominou as Williams. Para mim, uma das melhores corridas dele na história.

  18. Adelaide entrou e saiu da Fórmula 1 com duas corridas totalmente “fora da curva” e muito marcantes. A de 1995, especialmente, acredito ter sido uma das melhores provas que aconteceram na história. Entraria fácil no meu ‘top 5′ dos últimos 15 anos, e com um detalhe: não teve chuva e não teve Safety Car. Tudo o que havia era um circuito desafiador e pilotos sem nada a perder loucos para mostrar seu valor. Damon Hill queria recuperar o prestígio após ter perdido o campeonato “mesmo com o melhor carro”. Schumacher se despedia da Benetton, mas encontrou um Alesi pela frente, que não havia engulido uma disputa que ambos tiveram em Nurburgring. Frentzen, Blundell, Morbidelli… foram tantos os pilotos que brilharam – e/ou se estabanaram – que fica difícil de lembrar.

  19. marcelo bueno disse:

    não me lembro em que ano a umas 5 voltas do final as ligiers disputavam 2 e 3 lugar, acho q era philip streiff e eric comas (se não me engano) um bateu no outro e streiff chegou com 3 rodas e uma quicando que nem bola de basquete preso pela suspensção. foi divertidissimo.

    • Nikolas Spagnol disse:

      Era o Streiff e o Jacques Laffite. O Laffite foi o segundo e o Streiff o terceiro com a suspensão ferrada. No ano seguinte o Laffite sofreu um acidente, quebrou as pernas e abandonou a Fórmula 1, e 3 anos depois o Streiff se acidentou com sua AGS testando no Rio e até hoje está numa cadeira de rodas por conta disso…

  20. JC disse:

    Uau, que foto legal!

    Renault com a pintura clássica, JPS na Lotus, as Ferrari com o vermelho mais bacana que já tiveram (mas não ganhava nada), as clássicas MacLaren Malboro e as Willians que marcaram época.

  21. RT @f1brasil: 25 anos de GP da Austrália http://migre.me/qxo3 #f1

  22. RT @ivancapelli: Esqueci de avisar: desde ontem já está no blog um especial sobre os 25 anos do GP da Austrália. http://bit.ly/cGaBRH

  23. João disse:

    Seria melhor duas corridas na Australia, uma em Albert Park e outra em Adelaide do que uma nesses circuitos “modernos” de atualmente.

  24. Capelli disse:

    Esqueci de avisar: desde ontem já está no blog um especial sobre os 25 anos do GP da Austrália. http://bit.ly/cGaBRH

  25. Onyas disse:

    Uma pena não termos mais provas em Adelaide…

    …por outro lado Albert Park é ótima!

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