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24 de março de 2011 - 13:48Análises, Automobilismo

O Fator Tilke

* Texto produzido para o Especial F1 2011 do site Grande Prêmio

Houve um tempo em que o Mundial de F1 era dividido em períodos bastante distintos. Com mais da metade das corridas acontecendo em território europeu, falava-se na ‘temporada europeia’ do campeonato, período no qual ocorria o campeonato propriamente dito. Havia corridas importantes na Ásia, na África e nas Américas, mas as equipes consideravam decisivas as provas da Europa porque, além de serem mais numerosas, aconteciam em sequência e possuíam características semelhantes entre si. Eram circuitos velozes — Silverstone, Monza, Hockenheim, Zeltweg, Paul Ricard, Imola, entre outros — que exigiam baixos perfis aerodinâmicos e força de motor. Tais características guiavam o planejamento das equipes, que preferiam ter carros competitivos na Europa, ainda que pudessem dar alguma chance aos adversários nas demais corridas.

Porém, a partir do final dos anos 90 as coisas começaram a mudar. A internacionalização da F1 levou a categoria a fazer cada vez mais provas para além do continente europeu. Além disso, os próprios circuitos da Europa começaram a ser revistos após as traumáticas mortes de Ayrton Senna e Roland Ratzenberger. Com isso, surgiu um novo paradigma para desenvolvimento de autódromos para a F1: circuitos com grandes áreas de escape, poucas curvas de alta velocidade e retas antecedidas por curvas muito fechadas. Quem estabeleceu este paradigma? Um arquiteto alemão de nome famoso, mas cujo rosto muita gente desconhece: Hermann Tilke.

O primeiro trabalho de Tilke para Bernie Ecclestone foi o circuito de Sepang, na Malásia, inaugurado em 1999. Antes disso, ele já tinha sido o responsável pela reforma de Zeltweg, que tornou-se A1 Ring, mas foi na Ásia que nasceu um casamento que não parou de render frutos, ainda que questionáveis. De lá para cá, Tilke já projetou nove autódromos novos para a F1, além de ter reformado inteiramente o traçado de Hockenheim, na Alemanha. Mas nem mesmo outros circuitos mais antigos escaparam a mão do arquiteto: Monza, Silverstone, Nürburgring e Montmeló também já foram revisitados por ele, ainda que mais em obras de infra-estrutura do que exatamente em remodelagem do traçado.

A presença cada vez mais maciça da obra de Hermann Tilke na F1 na última década começa a gerar um novo fator na categoria. Atualmente, é muito importante ter um carro que seja adequado às características dos circuitos por ele projetados. Afinal, em 2010 Tilke assinou o projeto dos circuitos de nove das 19 corridas disputadas. Dominar os tilkódromos está se tornando um fator decisivo para a briga por um título. E não só para as equipes, mas também para os pilotos.

Que o diga Mark Webber, o australiano da Red Bull que perdeu por muito pouco o título de 2010 para seu companheiro Sebastian Vettel. O desempenho de Webber nos tilkódromos é muito baixo, nunca tendo até hoje ganhado uma corrida sequer num destes circuitos. Na temporada passada, marcou neles ridículos 68 pontos, enquanto que foi o maior pontuador nos outros tipos de autódromos, com 174 pontos. Para efeito de comperação, o campeão Vettel marcou exatamente o mesmo número de pontos nos circuitos Tilke e não-Tilke: 128 em cada. Fernando Alonso, vice-campeão, fez o mesmo: 126. Pode-se dizer sem errar: Mark Webber perdeu o título por causa do mau desempenho nos tilkódromos.

Isso porque a tendência é que os circuitos-Tilke continuem a ganhar espaço no calendário. Em 2011, seriam nove etapas em 20, não fosse o cancelamento do GP do Bahrein por motivos extra-pista. E para 2012, ao que tudo indica, serão 10 das 20 etapas. Em pouco tempo, eles serão a maioria do campeonato. E, a partir disso, o ‘Fator Tilke’ passará a orientar decisivamente o planejamento de equipes e pilotos.

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comentários

7 comentários

  1. Felipe Goltz disse:

    O grande problema dos tilkódromos não é exatamente Hermann Tilke, que faz apenas aquilo que lhe mandam, mas Bernie Ecclestone, que deseja circuitos cada vez mais parecidos com obras faraônicas em países sem nenhuma tradição na F1, com grande impacto visual, mega chiques e modernos, assim como “televisionáveis” para o público e, principalmente, para os patrocinadores. Se o traçado for chato ou não, tanto faz. Não é o mais importante para Bernie. Essa aberação chamada Yas Marina em Abu Dabhi é a grande prova disso. Não tenho nada contra corridas em outros países, mas aturar lugares como Bahrein, Cingapura ou Abu Dabhi é dose para leão.

  2. Rubens Monterrubio disse:

    E depois vem o Tio Ben querendo fazer qualquer coisa para que as ultrapassagens sejam mais frequentes, não seria mais fácil contratar um engenheiro que conheça corridas e faça alguns pontos de ultrapassagens e jogar no colo dos pilotos que isso depende deles? Tomem por base o Mito Kobayashi!

  3. Tem razão Capelli, nos últimos anos houve uma invasão dos “Tilkódromos”, pra mim o único que presta é o da turquia, os outros não tem bons pontos de ultrapassagem e alguns parecem pistas de kart, como Abu Dhabi. As boas corridas sempre acontecem nas pistas mais tradicionais como Spa, Interlagos ou Suzuka.
    O que eu não entendo é porque ele e só ele continua mandando e desmandando na construção dos autódromos. Alguma coisa com o Bernie ele tem.

  4. Capelli disse:

    F1 começando, blog volta ao ritmo de temporada. Texto sobre o "Fator Tilke", que tirou de Webber o título de 2010. http://is.gd/xfZXWS

  5. Gabriel Lima disse:

    Ótima lembrança, Ivan. Não tinha visto dessa perspectiva esses fatos.
    Além de ser ridículo o fato de termos Tilkódromos sem sal fazendo metade do mundial começa a ser injusto, já que todos os circuitos pasteurizados e padronizados fazem o campeonato ser de pilotos que tem a mão deles. Webber não tinha (em termos, na minha opinião, já que fez pole na turquia, malásia, e foi primeira fila na coréia e china), e se deu mal. Injustiça. Ter um ou outro tilkodromo, tudo bem… mas meia temporada é muito imbecil.

    Bom post, abraço!

  6. Vitor Alves disse:

    Tilke estragou a Formula 1

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