MENU

25 de abril de 2008 - 23:21História

Causos da Espanha: a estréia de Montmeló


Raramente, desde os anos 90, a Espanha é palco de uma grande corrida de Fórmula 1. Além de ser utilizado para testes das equipes durante toda a pré-temporada, o circuito de Montmeló praticamente não possui pontos de ultrapassagem. O resultado? Provas monótonas e previsíveis, com raros lances de emoção.

Mas nem sempre foi assim. Na estréia do circuito catalão, em 1991, a exibição foi de gala. Uma corrida que podia decidir o título, movimentada e cheia de alternativas. E, de quebra, com lances antológicos.

O GP da Espanha daquele ano era a antepenúltima prova do campeonato, disputada em setembro. Nigel Mansell e Ayrton Senna brigavam pelo título, com grande vantagem para o brasileiro. Com 24 pontos atrás na tabela, um simples abandono de Mansell definiria o campeonato a favor do piloto da McLaren. O inglês não poderia, também, chegar abaixo do terceiro lugar. E, se fosse segundo, Senna teria de chegar abaixo do quarto posto para que o título continuasse em aberto. Em resumo: para o Leão, era vencer ou vencer.

Nos treinos, Gerhard Berger marcou a pole position. Mansell foi o segundo e Senna, o terceiro. A estratégia da McLaren para a corrida era deixar Berger fazer as vezes de coelho, disparando na ponta, enquanto Senna, largando do lado limpo da pista, tentaria pular na frente de Mansell e segurar o ritmo. O inglês sempre foi instável psicologicamente e o time de Ron Dennis jogava com isso. A intenção era deixar o adversário nervoso ao perceber Berger desgarrando na frente e forçá-lo a um erro. Conhecendo Mansell, era um cenário bem provável.


Chega o dia da corrida e uma fina garoa cobre o Circuito da Catalunha desde cedo. Na hora da largada, a pista permanece úmida, fazendo com que todos saiam com pneus de chuva. Ao acender das luzes verdes, tudo ocorre tal qual o script da McLaren. Berger pula na ponta e Senna arranca muito bem, tomando o segundo lugar de Mansell. Melhor ainda: algumas curvas depois, o atrevido Michael Schumacher, em apenas sua quarta corrida de Fórmula 1, não toma conhecimento da Williams do Leão e o ultrapassa também, assumindo o terceiro posto.

Mas Nigel Mansell estava inspirado, mesmo com um tornozelo machucado depois de uma partida de futebol na sexta-feira. Manteve a calma, ficou mais uma volta atrás de Schumacher e recuperou a posição logo depois. Enquanto Senna segurava o ritmo e permitia que Berger abrisse oito segundos na frente, o inglês foi à caça. Na abertura da quinta volta, uma cena que se tornou antológica. Mansell entra na reta embutido na McLaren de Senna e tira para o lado interno para tentar a ultrapassagem. Os dois descem a reta de quase 1km do circuito lado a lado, praticamente tocando rodas, até que, na freada, o inglês leva vantagem e assume a segunda posição.


Porém, o belo lance não foi decisivo para história da corrida. Cinco voltas depois, Senna e Mansell param juntos para colocar pneus slick. A McLaren trabalhou melhor, devolvendo o brasileiro à pista na frente do inglês. As posições estavam novamente invertidas.

Berger também já havia parado e caiu para segundo, entre Senna e Mansell. Mas a McLaren preferiu não modificar sua estratégia e, na passagem seguinte, o brasileiro fez sinal no meio da reta e permitiu a ultrapassagem do companheiro, como que dizendo: “vai, coelho!”.

Ayrton voltou a segurar Mansell, mas sua autosuficiência nem sempre era suficiente. Na última curva do traçado, escapou na pista molhada e ficou atravessado na área de escape. Conseguiu retornar à prova, mas encheu a pista de brita e já havia caído para a sétima posição, perdendo qualquer chance de voltar a brigar pela ponta. Seu objetivo, a partir de então, era chegar em quarto lugar, contando com uma vitória de Berger para garantir o tricampeonato mundial.


Mas Mansell não estava deixando barato e partiu para um novo ataque sobre uma McLaren, agora para assumir a liderança. A diferença, que era de apenas quatro segundos, foi caindo rapidamente. Na volta 17, o inglês coloca por dentro na curva 4, escorrega de lado, faz Berger escorregar também e consuma uma linda ultrapassagem, com os dois carros derrapando na pista ainda úmida. Schumacher tentou tirar proveito para roubar o segundo lugar do austríaco, mas perdeu o controle de sua Benetton e acabou atolado na lama.

Restavam 48 voltas para o fim e a McLaren ainda contava com uma reação de Berger, mas seu carro foi perdendo rendimento até o austríaco encostar nos boxes, com pane elétrica. O sonho do tri de Senna ficava adiado.

Dali para a frente, Nigel Mansell passou a controlar a diferença para a Ferrari de Alain Prost, que herdara o segundo posto depois do abandono de Berger e dos erros de Senna e Schumacher. Lá atrás, Senna era o terceiro e se degladiava com Riccardo Patrese e Jean Alesi, mas cedeu as duas ultrapassagens, cautela um tanto incomum em sua carreira. O brasileiro preferiu não arriscar e garantir alguns pontos, pois sabia que, qualquer que fossem, tornariam sua situação muito cômoda para ser campeão no Japão.


Depois de 65 voltas, Mansell recebe a bandeira quadriculada em primeiro lugar, numa das mais difíceis vitórias de sua carreira. Com o resultado, adia a decisão do campeonato e mantém-se vivo por pelo menos mais uma corrida. Senna cruza em quinto e passa a depender de apenas mais cinco pontos em duas provas para confirmar o título, sem depender de resultados paralelos.

Em Montmeló, Mansell foi um verdadeiro anti-Mansell, com uma rara exibição de inteligência, sangue frio e autocontrole. Escapou das armadilhas de seus adversários, mas não por muito tempo. Em Suzuka, três semanas depois, a McLaren se utilizou da mesma estratégia do GP da Espanha para bater o inglês. Berger disparou na ponta e Senna ficou em segundo, controlando o ritmo. No desespero em tentar tomar a posição, Mansell afobou-se, rodou sozinho no final da reta e entregou o campeonato para Senna. O Leão voltava a ser o Leão.

Atualização: Há ótimo um resumo da corrida, em português, no Youtube.

Comentários do Facebook

comentários

10 comentários

  1. tor erik disse:

    senna sempre ganhou com melhor carro do grid, e tinha esse coelho do berg que parecia uma tartaruga.

  2. Guzz disse:

    Olá Capelli,

    Além da antológica disputa entre Senna X Mansell descendo a reta, tem também o lance onde o Senna escapa na entrada da reta.
    O interessante daquela escapada é que ela foi causada pelo uso de um pneu de composto mais duro na dianteira esquerda enquanto os demais eram mais macios, (saudades quando isso era possível), mas então a McLaren entrou na reta saindo de traseira e indo em direção ao muro dos boxes, porém era possível ver a McLaren andando para frente enquanto as rodas traserias já giravam para trás, sei lá como ele conseguiu engatar a ré, mas ele retorna de marcha-a-ré entre 2 carros, se não me falha a memória, Mansell passa, ele retorna de ré e vem Schumacher, por pouco não houve um acidente.

  3. Tempest disse:

    Senna foi o anti-Senna, Mansell foi o anti-Mansell, Barcelona foi a anti-Barcelona, só Galvão foi o que sempre foi.

  4. Anonymous disse:

    Berger era tão ruim, mas tão ruim que mesmo Senna lesmando na pista pra deixar ele abrir, ainda voltou na frente depois da troca de pneus.

    A facilidade com que Mansell passou Berger já explica o porquê de a Mclaren sempre o designar como coelho nas estratégias dessa temporada. Ele não tinha o mínimo talento pra manter Mansell atrás tempo suficiente pra Senna abrir alguma coisa.

  5. Anonymous disse:

    Particularmente achei essa estratégia de deixar o Berger partir na frente errada. Será que não seria melhor o Senna passar o Berger e deixar que ele segurasse o leão? Como o Senna era mais rápido que o Berger, poderia abrir na frente, numa pista de difícil ultrapassagem.
    Autista papa-mocréia foi ótima.
    Abraço a todos.
    Paulo Santos/RJ

  6. Tempest disse:

    “O inglês sempre foi instável psicologicamente e o time de Ron Dennis jogava com isso”

    Não por acaso, a melhor definição do piloto inglês é da Desciclopédia: “autista papa-mocréia”

  7. Anonymous disse:

    Nessa época o Galvão já estava velho. Quando o Senna manda o Berger ultrapassar, está lá o Galvão lendo algum papel ou tirando caca do nariz.

  8. Capelli disse:

    Obrigado pela correção, era antepenúltima mesmo, já acertei.

    Mas sobre o grid, não foi isso não. Mansell saiu em segundo mesmo.

    Abraço,

    Capelli

  9. Anonymous disse:

    Depois de ver essas partes da corrida no youtube, bateu até um desanimo de acordar cedo amanhã para assistir à corrida. Mas sei que vou acordar de qualquer forma, sei lá a sperança é a última que morre.

  10. Anonymous disse:

    Capelli,

    Dois erros:

    1- Na era a penultima prova do campeonato. Era a antepenultima
    2- Mansell largou em terceiro e não em segundo.

    Parabens pela lembrança desta corrida.

    Abs

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *