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23 de fevereiro de 2011 - 14:23Análises, Automobilismo

Quando todos saíram perdendo

Admito que me surpreendi com o cancelamento do GP do Bahrein de Fórmula 1. Ainda que todos os motivos mais sensatos do mundo apontassem para a não-realização da prova barenita, é sabido que negócios nem sempre combinam com sensatez. Ainda mais quando ingredientes políticos estão no recheio. Há pouco mais de 25 anos, na África do Sul, foi exatamente assim. A Fórmula 1 não deveria ter sequer colocado os pés no país naquele outubro de 1985. Mas não só o fez, como realizou uma corrida, contrariando apelos de todo o mundo.

A África do Sul vivia um dos momentos mais sangrentos do Apartheid, regime repressor que segregava a maioria negra da população. Repudiado pela comunidade internacional, o país sofria boicotes políticos e embargos comerciais da ONU. Os embargos também atingiam o campo esportivo. Ainda nos anos 70, a FIFA baniu a África do Sul de competições de futebol, o COI proibiu o país de disputar os Jogos Olímpicos e mesmo o rúgbi e o críquete, esportes mais populares do país, também não podiam mais participar de competições internacionais. Mas, ainda assim, a Fórmula 1 continuava realizando sua corrida por lá, anualmente.

Normalmente programada para o começo do calendário, em 1985 foi diferente. A corrida foi agendada para outubro, como penúltima etapa do campeonato. E sofreu uma infeliz coincidência. Para a sexta-feira, véspera do GP, estava marcada a execução de Benjamin Moloise, poeta militante do Congresso Nacional Africano, partido tornado clandestino cujo presidente de honra era Nelson Mandela. O regime do Apartheid condenava e executava mais de 60 negros por ano no país, todos acusados de crimes políticos. Moloise era um deles. Apelos vinham de todas as partes. A comunidade internacional fez esforços para evitar a execução do condenado, algo similar ao ocorrido ano passado com Sakineh Ashtiani, condenada à morte no Irã. Mas tudo em vão.

O local previsto para a execução era a prisão central de Pretória, distante pouco mais de 20km do autódromo de Kyalami. O que reforçava a ideia de que a Fórmula 1, além de não dever correr na África do Sul, estava no lugar errado e na hora errada. A Finlândia fez apelos para que Keke Rosberg não disputasse a prova. O governo italiano pediu que suas equipes e pilotos boicotassem a corrida. A RAI, TV estatal da Itália, cancelou a transmissão pela televisão. A França fez o mesmo apelo e foi a única nação parcialmente atendida. As equipes Renault e Ligier não viajaram ao país, mas os pilotos franceses foram para Kyalami normalmente. Alain Prost chegou a prometer que, em protesto, não subiria ao pódio, o que acabou não cumprindo.

No Brasil, as pressões também foram imensas. Dois meses antes, em agosto, o presidente José Sarney havia assinado um decreto proibindo a todos os cidadãos brasileiros o intercâmbio esportivo, artístico e cultural com a África do Sul. Como brasileiros, Ayrton Senna e Nelson Piquet não poderiam participar da corrida e teriam seus vistos de saída negados caso embarcassem do Brasil. Como estavam na Europa, viajaram sem problemas para Kyalami, ainda que tenham recebido uma carta da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados pedindo a “deserção”. O Ministério das Relações Exteriores enviou telegrama à CBA solicitando interferência junto à FIA para a não-realização da corrida. O ministro da época, Olavo Setúbal, fez um pedido pessoal a Jean-Marie Balestre. E foi ignorado.

Como também ignoraram os pedidos os pilotos brasileiros. Senna disse: “Não tem problema. Faço o meu trabalho, que é pilotar um carro para uma equipe inglesa”. Piquet deu ainda mais de ombros: “Essa história de que fui pressionado é invenção de um jornalista”. E Emerson Fittipaldi, que já estava na Indy, deu sua opinião à Folha de São Paulo: “Está muito certo [o acontecimento da corrida]. Esporte e política são coisas diferentes”.

E assim, enquanto Moloise era executado e a África do Sul entrava em convulsão social, com negros agredindo brancos nas ruas, quebrando vidraças, brigando e tomando tiros da polícia e colocando fogo em barricadas, a Fórmula 1, superficial, alienada e indiferente, ligava seus motores. Mas as pressões surtiram algum efeito, ainda que tardio. A FIA aderiu ao boicote ao país e só voltou a levar a Fórmula 1 novamente para lá em 1992, com o fim do Apartheid e dos embargos, dois anos após a libertação de Mandela, que seria eleito presidente em 1994.

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comentários

29 comentários

  1. [...] O automobilismo, e a Fórmula 1 em especial, é movido por dinheiro e pouco se importa com questões de direitos humanos. Assim, nos anos 80, em pleno apartheid, a categoria realizou GPs na África do Sul, mesmo depois da suspensão do país por outros esportes (Fifa e COI, por exemplo) e de uma condenação mundial ao regime de segregação racial (leia texto aqui). [...]

  2. Que iria dar trabalho no ano seguinte. Piquet, Senna e Prost que…RT @ivancapelli: Quando todos saíram perdendo http://bit.ly/gU6KcQ

  3. Circunstâncias tão estranhas. PS. Vitória do Mansell, mostrando…RT @ivancapelli: Quando todos saíram perdendo http://bit.ly/gU6KcQ

  4. Keke Rosberg deu um show de arrojo. Pena que a corrida tenha sido em…RT @ivancapelli: Quando todos saíram perdendo http://bit.ly/gU6KcQ

  5. Tenho essa corrida p/ TV Portuguesa. Foi uma das melhores da temporada…RT @ivancapelli: Quando todos saíram perdendo http://bit.ly/gU6KcQ

  6. Excelente texto do Capelli RT @ivancapelli: Quando todos saíram perdendo http://bit.ly/gU6KcQ

  7. Capelli disse:

    Pessoal, obrigado pelo alerta sobre a eleição do Mandela. Já corrigi o texto.

  8. Capelli, existe um erro de “fechamento” em seu texto pois, de acordo com a “Dona História” o final deveria ser: “A FIA aderiu ao boicote ao país e só voltou a levar a Fórmula 1 novamente para lá em 1992, com o fim do Apartheid, dos embargos, dois anos após a libertação de Mandela, que seria eleito presidente em 1994.” De resto, meus parabéns!

  9. RT @ivancapelli: Quando todos saíram perdendo http://bit.ly/gU6KcQ

  10. Branta disse:

    Parece que a equipe RAM também não foi para a Africa do Sul…. mas não foi porque tinha sérios problemas financeiros, assim como a Zakspeed. Na pista apenas 21 pilotos, o menor número desde a greve em Imola 82. Só para constar, pela RAM pilotavam P. Alliot e M. Winkelhock.

  11. Eduardo Casola Filho disse:

    As pessoas ligadas à F1 geralmente ligaram mais pelo dinheiro que para qualquer outra coisa.. E olha que o Bernie não tinha todo o poder que tem hoje. Imagina se fosse agora?

  12. RT @ivancapelli: Para quem não viu ao meio-dia: em 1985, a F1 ignorou apelos internacionais para não correr. No blog: http://bit.ly/hGyyax

  13. Nikolas Spagnol de Oliveira disse:

    E foi a última corrida de F1 a ser disputada num sábado,

  14. Nikolas Spagnol de Oliveira disse:

    Outra coisa: a Zakspeed (alemã) também boicotou a corrida.

    Mas pode ter sido só pra fazer economia e evitar a viagem longa…

  15. Nikolas Spagnol de Oliveira disse:

    Uma curiosidade: Nelson Mandella foi eleitoa presidente da África do Sul em 1994 – mais precisamente, numa eleição realizada no 1º de Maio de 1994.

    Mas em 92 já estava fora da cadeia.

    Pena que a pista foi esculhambada, a versão anterior era bem melhor.

  16. Capelli disse:

    Para quem não viu ao meio-dia: em 1985, a F1 ignorou apelos internacionais para não correr. No blog: http://bit.ly/hGyyax

  17. Bahrein e África do Sul na F1? leia este excelente texto do @ivancapelli em: http://j.mp/hyJaPd

  18. Flávio disse:

    Bela lembrança… só pra ser chato… o nome correto do ministro das Rel. Exteriores era Olavo.

  19. Edgar Poletti disse:

    RT @ivancapelli: Em 1985, a F1 ignorou apelos internacionais para não correr. Ainda bem que em 2011 foi diferente: http://bit.ly/hGyyax

  20. Excelente crônica! RT @ivancapelli Em 1985, a #F1 ignorou apelos internacionais p/ não realizar GP. No blog: http://bit.ly/hGyyax

  21. Bela lembrança! RT @ivancapelli Em 1985, a F1 ignorou apelos internacionais para não correr. http://bit.ly/hGyyax

  22. Capelli disse:

    Em 1985, a F1 ignorou apelos internacionais para não correr. Ainda bem que em 2011 foi diferente. A história, no blog: http://bit.ly/hGyyax

  23. Ah, então não foi a prisão de Leeukop. Estava longe da minha referência quando escrevi o comentário…

    O pior é que foi uma corridaça, um dos grandes desempenhos de Keke Rosberg, numa pista animal. O que é uma pena, porque Fittipaldi foi um piloto muito bom e um sociólogo muito ruim; mas Weber, que devia ser um piloto muito ruim, está absolutamente certo ao cravar que o homem é um animal político, e nada que fazemos deixa de ser um gesto político.

  24. RafinhaDias disse:

    POw Capelli, que belo texto. Não sabia de muitas das coisas que tu conta, lembro sim das fotos das arquibancadas cheias de loiros e branquelos. Mas a posição dos brasileiros o canetaço do Sarney só por aqui. Obrigado guri. Abs

  25. Ulisses disse:

    Lembro até do comentário que Keke fez, aos apelos do governo finlandês:
    “O governo da Finlândia não paga o meu salário!”

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