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21 de fevereiro de 2011 - 13:43Análises, Automobilismo

Um mínimo de sensatez

Espera-se que saia hoje, ou no máximo nos próximos dias, a confirmação da não-realização do GP do Bahrein, etapa de abertura da temporada 2011 da Fórmula 1, programada para 13 de março. O país vive uma crise política, com uma boa parcela da população exigindo democratização e a deposição da família real que governa o país há 40 anos. Mas, dadas as decisões que contrariam o bom senso que costumam sair da cabeça de Bernie Ecclestone, ainda tenho dúvidas se realmente o cancelamento acontecerá.

Bernie só enxerga dinheiro e é justamente isso que está em jogo. Na semana passada, depois de dizer de maneira escrota que “torce para que tudo lá exploda”, o dirigente repassou a responsabilidade à família real barenita, dizendo que é ela quem deve tomar a decisão de confirmar ou cancelar a corrida. O ato de lavar as mãos tem explicação. O governo do Bahrein pagou 40 milhões de Euros à FOM para poder organizar a prova, mais um adicional de 20 milhões para ser a etapa de abertura. Um cancelamento por parte da Fórmula 1 obrigaria a devolução do dinheiro, enquanto que, vindo a decisão do governo local, Bernie não precisaria devolver nem um centavo.

O grande problema é que muito mais coisas estão envolvidas do que apenas a questão financeira. O GP do Bahrein de Fórmula 1 é um capricho do governo local, um sonho que virou realidade em 2004. Uma forma de divulgar o Bahrein para o mundo como uma nação rica, estável, próspera e que pode ser um belo destino turístico. Porém, justamente por isso, na visão da oposição cujos manifestantes exigem a deposição do governo, a F1 é a joia que representa a família real. A realização de uma corrida num momento como este seria uma demonstração de força dos governantes, mostrando para o mundo que a situação no país está controlada. Mas não está. Um evento do porte da F1 seria o palco perfeito para que uma ruidosa oposição xiita mostrasse ao mundo toda a sua força.

Por isso, as chances de protestos e até atentados vitimarem a organização, as equipes e até os jornalistas são grandes. A polícia barenita vem agindo com truculência contra os manifestantes, diariamente fala-se em dezenas de mortos e centenas de feridos. A tensão cresce a cada dia e a escalada de violência pode, sim, atingir a Fórmula 1. Cauteloso, o governo britânico recomendou que cidadãos de seus países não viajem ao Bahrein.

Dado este cenário, a decisão pelo cancelamento (ou, no mínimo, o adiamento) da prova parece óbvia, mas não é assim que funciona a cabeça dos (ir)responsáveis. Bernie não quer devolver 60 milhões ao Bahrein, enquanto que o governo local não quer dar uma demonstração pública de descontrole social. E a Fórmula 1 ali no meio.

Caso todo mundo resolva que a prova deva acontecer, resta acreditar na sensatez das equipes. Se, no passado, times como Ligier e Renault boicotaram o GP da África do Sul em protesto contra o Apartheid, seria bonito ver o mesmo gesto no Bahrein. Mas, como os tempos são outros, as multas são pesadas. E, reféns do dinheiro e do poder, todos podem mesmo acabar correndo em Sakhir daqui a três semanas. Uma situação na qual todos sairiam perdendo.

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ATUALIZAÇÃO: Minutos após a publicação deste post, a BBC noticiou o adiamento da corrida. Felizmente, a sensatez falou mais alto. Ainda há esperança.

Comentários do Facebook

comentários

9 comentários

  1. Pandini disse:

    Capelli, a lembrança dessa corrida foi a primeira que tive depois do cancelamento do GP de Bahrein. Excelente texto e pesquisa, eu nem lembrava mais do pedido do governo brasileiro. Só uma correção: em 1992, quando a F1 voltou para a África do Sul, o apartheid rumava para o fim e Nelson Mandela realmente já havia saído da cadeia. Mas ele só foi eleito presidente em 1994. Abraços! (LAP)

  2. Thiago Dias disse:

    Só uma correção Capelli: a familia real no Bahrein governa o país há dois séculos, e não 40 anos. 4 década é o tempo da ditadura que ocorre na Líbia.
    Abs.

  3. Felipe Arantes disse:

    Ainda lembremos do caso recente, em 2005. Apesar de ser por motivo mais interno que externo à F1, todas as equipes com pneu Michelin simplesmente abandonaram o GP dos EUA, alegando falta de segurança para os pilotos, devido à dúvida quanto a resistência dos pneus, tendo assim um GP com Ferrari, Jordan e Minardi…

  4. Felipe disse:

    Aee Capelli!

    Andei lendo seus outros posts dessa nova temporada e parecia que você tava diferente no jeito de escrever, sei lá… Gostei da volta do sarcasmo capellesco e das análises críticas mais profundas!

    muito legal! Fico feliz pela sua volta…

  5. lucastex - f1 disse:

    Um mínimo de sensatez http://goo.gl/fb/ZjrAP #análises #automobilismo #gpdobahrein

  6. JOSE MATTIOLI disse:

    RT @ivancapelli: Um mínimo de sensatez http://bit.ly/ejrF95

  7. Marcelo Luiz disse:

    kkkk RT @ivancapelli Bem na hora que adiam o GP do Bahrein, meu post que acaba de ser publicado fica velho. http://bit.ly/f457lg

  8. Internet meu caro! @ivancapelli Bem na hora que adiam o GP do Bahrein, meu post que acaba de ser publicado fica velho. http://bit.ly/f457lg

  9. No boicote à África do Sul, em 1985, o cenário era pior. O Apartheid existia há anos e todo mundo corria lá sem muito peso na consciência, mas, pelo que me lembro (de ter lido), um negro seria executado na prisão de Leeukop no fim se semana marcado para a prova. E a prisão era tão perto do autódromo que, de fato, havia uma curva chamada Leeukop. Daí a França ter repudiado a condenação e puxado o boicote das equipes francesas.

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